domingo, 9 de outubro de 2016


O ANIMAL SATISFEITO DORME..E O HOMEM?
Guida Linhares
No pensamento de Guimarães Rosa "O animal satisfeito dorme..."penso estar inserida justamente a natureza irracional, em que o maior desafio seja a sobrevivência da espécie, que ao satisfazer as suas necessidades de fome, sede e procriação, dorme plácidamente.
Mário Sérgio Cortella, em seu livro "Não nascemos prontos-provocações filosóficas", considera um elogio estimulativo dizer a uma pessoa: "Seu trabalho é bom mas fiquei insatisfeito, e portanto, quero conhecer outras coisas."
Quanto se levanta a questão até onde o lado bom das situações leva o ser humano à acomodação, penso que há diversas variáveis a serem levadas em conta, como por exemplo a personalidade, o caráter, a estória de vida de cada um, o sentido de vida, os propósitos, expectativas e sonhos.
Se alguém projeta para si mesmo, um caminho que o leva à realização de algum propósito, com certeza os elogios serão benvindos, e ainda que ele ouça que o outro está satisfeito, se ele não sentir-se assim, prosseguirá com certeza, até alcançar os resultados desejados.
Não é fácil lidar com as emoções e sentimentos alheios, quando da apreciação de algum trabalho, pois há todo um conjunto de fragilidades e melindres a serem levados em conta.
Nem todos estão preparados para ouvir o ponto de vista do outro, assim como o estímulo externo tem um peso diretamente ligado ao estímulo interno de cada pessoa.
Se o estímulo interno for suficientemente forte, o homem não dormirá "em berço esplêndido" enquanto não concluir tudo aquilo a que se propôs. Afinal ele busca saciar a sede e a fome da alma que o impele a produzir algo.
Porém há criaturas que realmente precisam do estímulo externo, necessitando da palavra amiga e construtiva para dar continuidade aos seus projetos.
Que se use da sabedoria para dizer as palavras adequadas no momento de estimular alguém a sair da letargia, da acomodação, da mesmice e da falta de entusiasmo.
Que se acorde a bela adormecida alma do seu sono de mil anos. Afinal humanos que somos, poderá haver um momento na vida em que se precise de alguém que também nos estenda a mão e nos leve a subir mais um degrau da longa escada de evolução espiritual.
Santos/SP - 07/06/2009

***

Elaborado na sequência ao seguinte texto:

O ANIMAL SATISFEITO DORME
Redação do Momento Espírita
O pensamento que intitula esta reflexão é de Guimarães Rosa, e encerra, por trás de aparente obviedade, um profundo alerta existencial.
O que o escritor tão bem percebeu é que a condição humana perde substância e energia vital, toda vez que se sente plenamente confortável com a maneira como as coisas já estão.
Rende-se assim à sedução do repouso e imobiliza-se na perigosa acomodação.
A advertência é preciosa pois, segundo o pensador Mario Sérgio Cortella, que aborda o tema, a satisfação conclui, encerra, termina.
A satisfação não deixa margem para a continuidade, para prosseguimento, para a persistência, para desdobramento.
A satisfação acalma, limita, amortece.
Diz ainda, que, quando alguém nos fala: Fiquei muito satisfeito com você ou Estou muito satisfeito com seu trabalho, é algo assustador.
Explica ele que tal expressão pode ser entendida como uma barreira ao crescimento, dizendo que nada mais de nós desejam, ou que aquele é nosso limite, nossa possibilidade.
O está bom como está pode ser um grande cerceador da evolução, pois pode nos acomodar à situação atual.
Segundo ele, seria muito melhor ouvir a seguinte expressão: Seu trabalho é bom mas fiquei insatisfeito, e portanto, quero conhecer outras coisas.
Percebamos que ele se utiliza da expressão insatisfeito, não para criticar ou depreciar o trabalho, mas para incentivar seu autor à continuidade.
Um bom filme, por exemplo, não é aquele que, quando termina, ficamos insatisfeitos, parados, olhando quietos para a tela, enquanto passam os créditos, desejando que não acabe?
Um bom livro não é aquele que, quando encerramos a leitura, o deixamos no colo, absortos e distantes, pensando que poderia não terminar?
Uma boa festa, um bom passeio, uma boa viagem, não é aquela que desejamos se prolongue, que nunca acabe?
É desta forma que, segundo Cortella, a vida de cada um também deve ser, afinal de contas, não nascemos prontos e acabados.
Ainda bem, pois estar plenamente satisfeito consigo mesmo é considerar-se terminado e constrangido ao possível da condição do momento.
Termina ele dizendo que somos seres de insatisfação, e precisamos alguma dose de ambição em nossas existências.
O animal satisfeito dorme, pois não tem objetivos de vida, não tem razão para sair do lugar.
O ser insatisfeito, sedento por melhorar-se, pára por pouco tempo, avalia-se, celebra e valoriza o que já conseguiu. Depois, segue em frente, rumo ao inexplorado.
* * *
A reencarnação e suas leis são um grande incentivo ao progresso.
Como se acomodar perante um horizonte sem limites?
Como parar de caminhar sabendo que muito nos aguarda à frente?
Como deixar de buscar o aprimoramento constante, se percebemos que quanto mais conseguimos, mais felicidade conquistamos?
Despertemos, aqueles de nós que ainda dormimos o sono da acomodação!
Redação do Momento Espírita com base no texto Não nascemos prontos, do livro Não nascemos prontos - provocações filosóficas, de Mário Sérgio Cortella, ed. Vozes.

FALANDO DE POESIA
Guida Linhares

I -
Poesia é sonho mágico
em palavras realizado.
Passando pelo trágico,
até o mundo encantado.
***

II -
A poesia é uma ponte
que enternece os corações.
Ainda que desaponte
quando põe fim às ilusões.
***

III -
A poesia é quase tudo.
O vento que afaga o rosto,
em versos que sobretudo,
afastam muito o desgosto.
***

IV -
A convidada poesia
bateu na minha porta.
Abri com muita alegria,
ser feliz é o que importa.
***

Glosa da primeira estrofe do poema
Vem sentar-te comigo Lídia
de Ricardo Reis


   Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
   Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
   Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
   (Enlacemos as mãos.)

Glosa da primeira estrofe
Guida Linhares

    Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Falaremos de tantas coisas que pensamos,
trocaremos abraços e te aquecerei do frio,
e de nossos pesadelos nos desvencilhamos.

Ficaremos juntinhos apreciando a alvorada.
   Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos,
que nossos sonhos são os degraus da escada,
que nos levam à plenitude daquilo que idealizamos.

Para que eu te apazigue com lágrimas banhadas
Venhas trazer aos meus olhos as tuas tristezas.
   Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
Este meu leal coração somente vê a tua beleza.

   (Enlacemos as mãos.)
(Sejamos um só coração.)

Santos/SP/Brasil
27/11/06

&&&

Ven a sentarte conmigo, Lidia, a la orilla del río.
Hablaremos de tantas cosas que pensamos,
nos abrazaremos y te preservaré del frío,
y nos desataremos de nuestras pesadillas.

Nos quedaremos juntitos contemplando el alba.
Sosegadamente miremos su curso y aprendamos,
que nuestros sueños son peldaños de la escalera,
que nos lleva a la plenitud de aquello que idealizamos.

Para que yo te apacigüe en lágrimas bañadas
vengas a traer hasta mis ojos tus tristezas.
Que la vida pasa, y no estamos con las manos enlazadas.
Éste mi leal corazón sólo ve tu belleza.

(Enlacemos las manos.)
(Seamos un solo corazón.)

Version do prof amigo poeta Juan Martín

***

Vem sentar-te comigo Lídia
Ricardo Reis


Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

***

BIOGRAFIA:

Ricardo Reis nasceu em Lisboa, às 11 horas da noite do dia 28 de janeiro de 1914. Foi discípulo de Alberto Caeiro, de quem adquiriu a lição de paganismo espontâneo. Há informação dando conta de que teria embarcado para o Brasil em 12 de outubro de 1919. Médico de profissão, monárquico, facto que o levou a viver emigrado alguns anos no Brasil, educado num colégio de jesuítas, recebeu, pois, uma formação clássica e latinista e foi imbuído de princípios conservadores, elementos que são transportados para a sua concepção poética. Domina a forma dos poetas latinos e proclama a disciplina na construção poética.

Ricardo Reis é o heterónimo que mais se aproxima do criador, Fernando Pessoa, quer no aspecto físico - é moreno, de estatura média, anda meio curvado, é magro e tem aparência de judeu português (Fernando Pessoa tinha ascendência israelita)- quer na maneira de ser e no pensamento. É adepto do sensacionalismo, que herda do mestre Caeiro, mas ao aproximá-lo do neoclassicismo manifesta-o, pois, num plano distinto como refere Fernando Pessoa em Páginas Íntimas e Auto Interpretação, (p.350).

Ricardo Reis é marcado por uma profunda simplicidade da concepção da vida, por uma intensa serenidade na aceitação da relatividade de todas as coisas.


http://nescritas.nletras.com/fpessoa/rrbiografia.htm

http://www.prahoje.com.br/pessoa/?p=15

http://www.ciencias.com.br/pagina_bedaque/pessoa/biografia.htm

http://www.secrel.com.br/jpoesia/reis.html

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